Tuesday, June 28, 2005

Salvador Wilde


Tudo começa com um bom (e-terno vício) chocolate gelado e uma dessas companhias que te induzem e te despertam a tagarelar. Depois disso, em companhia dessa pessoa, veja uma peça que é um verdadeiro exercício filosófico. Sinta tesão por um dos atores. Tenha vontade de ler Fernando Pessoa no meio da peça. Perceba Sartre nas entrelinhas. Lembre da peça que você própria escreveu. Fume um cigarro enquanto analisa todos os aspectos e todas as frases de efeito que te marcaram com a mesma dita pessoa que te acompanhou. Deixe chover. Faça questão de deixar essa pessoa em casa porque você gosta da companhia dela, porque a noite a pé pode ser cruel e porque dirigir é uma delícia. Converse bastante com ela no caminho, relembre do homem complexo que você não esquece e perceba que ela definiu melhor que você a sua não-relação amorosa. Volte sozinha pra casa cantando “Esquadros” se esgoelando porque a vida é sozinha, linda, colorida e tem essas coisas e cores sem nomes que são mais que tudo. Cante também “Água Perrier”, que também define melhor que você a sua não-existente relação amorosa. Sorria com essa idéia e alegre-se: você chegou em casa.

Rapaz, não é que eu me revoltei mesmo?



“Como posso querer que meus amigos entendam as coisas loucas que passam pela minha cabeça, se eu mesmo não entendo?” - Salvador Dali

“Tenho amigos para saber quem eu sou”. - Oscar Wilde



“Esquadros”

eu ando pelo mundo prestando atenção
em cores que eu não sei o nome
cores de almodóvar
cores de frida kahlo, cores
passeio pelo escuro
eu presto muita atenção no que meu irmão ouve
e como uma segunda pele, um calo, uma casca,
uma cápsula protetora
eu quero chegar antes
pra sinalizar o estar de cada coisa
filtrar seus graus
eu ando pelo mundo divertindo gente
chorando ao telefone
e vendo doer a fome nos meninos que têm fome

pela janela do quarto
pela janela do carro
pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
eu vejo tudo enquadrado
remoto controle

eu ando pelo mundo
e os automóveis correm para quê?
as crianças correm para onde?
transito entre dois lados de um lado
eu gosto de opostos
exponho o meu modo, me mostro
eu canto pra quem?

pela janela do quarto
pela janela do carro
pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
eu vejo tudo enquadrado
remoto controle

eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê?
minha alegria, meu cansaço?
meu amor cadê você?
eu acordei
não tem ninguém ao lado

pela janela do quarto
pela janela do carro
pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
eu vejo tudo enquadrado
remoto controle



“Água Perrier”

não quero mudar você
nem mostrar novos mundos
porque eu, meu amor,
acho graça até mesmo em clichês
adoro esse olhar blasé
que não só já viu quase tudo
mas acha tudo tão deja vu
mesmo antes de ver

só proponho alimentar seu tédio
para tanto exponho a minha admiração
você em troca cede
seu olhar sem sonhos
à minha contemplação
aí eu componho uma nova canção

adoro sei lá porque
esse olhar meio escudo
que não quer meu álcool forte
e sim água perrier

Saturday, June 11, 2005

Boletim Especial Dia dos Namorados

“DAR”

Luis Fernando Verissimo

Dar não é fazer amor. Dar é dar. Fazer amor é lindo, é sublime, é encantador, é esplêndido. Mas dar é bom pra cacete. Dar é aquela coisa que alguém te puxa os cabelos da nuca... Te chama de nomes que eu não escreveria... Não te vira com delicadeza... Não sente vergonha de ritmos animais. Dar é bom. Melhor do que dar, só dar por dar. Dar sem querer casar.... Sem querer apresentar pra mãe... Sem querer dar o primeiro abraço no Ano Novo. Dar porque o cara te esquenta a coluna vertebral... Te amolece o gingado... Te molha o instinto. Dar porque a vida é estressante e dar relaxa. Dar porque se você não der para ele hoje, vai dar amanhã, ou depois de amanhã. Tem pessoas que você vai acabar dando, não tem jeito. Dar sem esperar ouvir promessas, sem esperar ouvir carinhos, sem esperar ouvir futuro. Dar é bom, na hora. Durante um mês. Para os mais desavisados, talvez anos. Mas dar é dar demais e ficar vazio. Dar é não ganhar. É não ganhar um eu te amo baixinho perdido no meio do escuro. É não ganhar uma mão no ombro quando o caos da cidade parece querer te abduzir. É não ter alguém pra querer casar, para apresentar pra mãe, pra dar o primeiro abraço de Ano Novo e pra falar: "Que que cê acha amor?". É não ter companhia garantida para viajar. É não ter para quem ligar quando recebe uma boa notícia. Dar é não querer dormir encaixadinho... É não ter alguém para ouvir seus dengos... Mas dar é inevitável, dê mesmo, dê sempre, dê muito. Mas dê mais ainda, muito mais do que qualquer coisa, uma chance ao amor. Esse sim é o maior tesão. Esse sim relaxa, cura o mau humor, ameniza todas as crises e faz você flutuar. Experimente ser amado...



“SER OU NÃO SER DE NINGUÉM?"

Arnaldo Jabor

Na hora de cantar todo mundo enche o peito nas boates, nos bares, levanta os braços, sorri e dispara: "eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também". No entanto, passado o efeito do uísque com energético e dos beijos descompromissados, os adeptos da geração "tribalista" se dirigem aos consultórios terapêuticos, ou alugam os ouvidos do amigo mais próximo e reclamam de solidão, ausência de interesse das pessoas, descaso e rejeição. A maioria não quer ser de ninguém, mas quer que alguém seja seu. Beijar na boca é bom? Claro que é! Se manter sem compromisso, viver rodeado de amigos em baladas animadíssimas é legal? Evidente que sim. Mas por que reclamam depois? Será que os grupos tribalistas se esqueceram da velha lição ensinada no colégio, onde "toda ação tem uma reação"? Agir como tribalista tem conseqüências, boas e ruins, como tudo na vida.... Não dá, infelizmente, para ficar somente com a cereja do bolo - beijar de língua, namorar e não ser de ninguém. Para comer a cereja é preciso comer o bolo todo e nele, os ingredientes vão além do descompromisso, como: não receber o famoso telefonema no dia seguinte, não saber se está namorando mesmo depois de sair um mês com a mesma pessoa, não se importar se o outro estiver beijando outra, etc, etc, etc. Embora já saibam namorar, "os tribalistas" não namoram. Ficar, também é coisa do passado. A palavra de ordem hoje é "namorix”. A pessoa pode ter um, dois e até três namorix ao mesmo tempo. Dificilmente está apaixonada por seus namorix, mas gosta da companhia do outro e de manter a ilusão de que não está sozinho. Nessa nova modalidade de relacionamento, ninguém pode se queixar de nada. Caso uma das partes se ausente durante uma semana, a outra deve fingir que nada aconteceu, afinal, não estão namorando. Aliás, quando foi que se estabeleceu que namoro é sinônimo de cobrança? A nova geração prega liberdade, mas acaba tendo visões unilaterais. Assim como só deseja "a cereja do bolo tribal", enxerga somente o lado negativo das relações mais sólidas. Desconhece a delícia de assistir a um filme debaixo das cobertas num dia chuvoso comendo pipoca com chocolate quente, o prazer de dormir junto abraçado, roçando os pés sob as cobertas e a troca de cumplicidade, carinho e amor. Namorar é algo que vai muito além das cobranças. É cuidar do outro e ser cuidado por ele, é telefonar só para dizer bom dia, ter uma boa companhia para ir ao cinema de mãos dadas, transar por amor, ter alguém para fazer e receber cafuné, um colo para chorar, uma mão para enxugar lágrimas, enfim, é ter alguém para "amar". Já dizia o poeta que "amar se aprende amando" e se seguirmos seu raciocínio, esbarraremos na lição que nos foi passada nas décadas passadas: relação é sinônimo de desilusão. O número avassalador de divórcios nos últimos tempos, só veio a confirmar essa tese e aqueles que se divorciaram (pais e mães dos adeptos do tribalismo), vendem na maioria das vezes a idéia de que casar é um péssimo negócio e que uma relação sólida é sinônimo de frustrações futuras. Talvez seja por isso que pronunciar a palavra "namoro" traga tanto medo e rejeição. No entanto, vivemos em uma época muito diferente daquela em que nossos pais viveram. Hoje podemos optar com maior liberdade e não somos mais obrigados a "comer sal junto até morrer". Não se trata de responsabilizar pais e mães, ou atribuir um significado latente aos acontecimentos vividos e assimilados na infância, pois somos responsáveis por nossas escolhas, assim como o que fazemos com as lições que nos chegam. A questão não é causal, mas quem sabe correlacional. Podemos aprender a amar se relacionando, trocando experiências, afetos, conflitos e sensações. Não precisamos amar sob os conceitos que nos foram passados. Somos livres para optarmos! E ser livre não é beijar na boca e não ser de ninguém. É ter coragem, ser autêntico e se permitir viver um sentimento... É arriscar, pagar para ver e correr atrás da felicidade. É doar e receber, é estar disponível de alma, para que as surpresas da vida possam aparecer. É compartilhar momentos de alegria e buscar tirar proveito até mesmo das coisas ruins. Ser de todo mundo e não ser de ninguém é o mesmo que não ter ninguém também... É não ser livre para trocar e crescer... É estar fadado ao fracasso emocional e à tão temida solidão.

Wednesday, June 01, 2005

Carta Náutica - 2

Coisas anônimas são boas só durante certo tempo. Desagradável desconfiança: não tenho paciência para conversar com mentes muito diferentes da minha. As pessoas sinceras são terríveis espelhos. Freud explica. Se eu fosse, acho que não voltaria. Pedir desculpas às vezes é um parto. Injustiça social: a lei do carma e a lei do eterno retorno. Paz: quando o Outro vira uma lembrança virada do avesso. Casamento devia constar no item “Das Penalidades”. Eu só me arrependo do que deixei de fazer. Os clichês se tornam clichês pela verdade que encerram. Banho ao som de “Innseiling” (mergulhar tem esse som). Apnéia. Voar ao som de “Cool wind green hills”. Correr ao som de “Summer running” (por que diabos os nomes dão certo com as sensações inspiradas??). Litoral, serra e sertão. A inveja foi uma das mais bem sucedidas invenções do demônio. O Inconsciente é um saco, eu queria ter domínio sobre mim. O que fazer para entrar na Família Schürmman? Tenho conhecido pessoas incríveis, que sorte. “As Horas” – para ler, ver e sentir. Eu queria ser uma grande guitarrista. Estou revendo minhas concepções religiosas: acho que passarei de atéia para agnóstica. O mundo me fere. Quem dera: equilíbrio. A única vantagem de envelhecer é a experiência adquirida – ainda assim, nem sempre resolve muita coisa. Às vezes, ser forte significa somente sobreviver. Nem toda feminilidade se apóia sobre saltos. Romantismo não tem cura, mas algumas doses de vida real amenizam incrivelmente o problema. Quase tudo passa, ou ao menos se modifica. Chuva, muita chuva, com trovões e relâmpagos – quanto mais, melhor. Eu odeio o Papa-léguas, o Piu-piu e o rato do Tom & Jerry, sou torcedora do Coiote e dos gatos. Eu também não gosto do Mickey, prefiro o Pato Donald. Cheiro da pele. Rir, sempre. Álcool tem um gosto terrível. Eu bebo muito pouco e sou altamente econômica: 3 cervejas me deixam totalmente inoperante, e é a única bebida que consigo tomar. Eu adoro Sex and the City. Eu não acredito em espíritos, mas morro de medo só por precaução. Eu geralmente sou muito impaciente. Carpe diem. Trabalhar com entusiasmo e de forma produtiva é muito gostoso. Adoro ter um amigo que fuma Piper. Eu também gostei de fumar Piper. Acho (e espero) que serei amiga do Danilo pra sempre. Do lado feminino, a Priscilla é a pessoa que mais me entende, é minha melhor amiga, da qual eu sinto muita falta e morro de medo que nossas vidas nos separem. Eu sou leal. Acho que vou tomar leite com Nescau até o fim da vida. Uma rede num alpendre. Cinéfila. Aprender, sempre. Adoro ser mulher. Muito manhosa, característica que se multiplica por dez ao menor sinal de uma simples gripe. Adoro homens e animais, especialmente os gatos. Eu sou muita sincera. Apesar de muito extrovertida, às vezes eu sou tímida para as maiores besteiras. Adoro estar apaixonada, tudo fica mais colorido. Eu gosto da filosofia oriental, e tento viver de acordo com ela o máximo possível. Adoro Calvin e Haroldo, e agradeço muitíssimo ao homem que me apresentou a eles (“Felino, Selvagem, Psicopata, Homicida”). Adoro quem conversa comigo me olhando nos olhos. O beijo esclarece boa parte do mistério. O Saturday Night Live é massa. O Monthy Pyton era perfeito. Com certeza: antes só do que mal-acompanhado. Eu sou extremamente agradecida pela vida que tenho. Piadinha sexista que eu adaptei: o homem que entendeu a mulher morreu de tanto rir, e a mulher que entendeu o homem morreu de tédio (brincadeirinha, meninos... adoro vocês). Eu tenho bom coração, mesmo que nem sempre consiga pôr isso em prática. Ascânio, Nilce, Cris, Dani. Eu achava que o mundo era perfeito porque eu nasci numa família quase perfeita. Escrever me economiza terapia. Eu fico muito na defensiva. Estou gostando do “Lost”, não perco um capítulo. Eu queria ter um gato. Improviso. Ironia. Tem horas que não dá pra esperar pelo resgate, é preciso fazer o que mais nos pesa: escolher. Mais uma do Quintana: “Todos esses que aí estão atravancando meu caminho, eles passarão... Eu, passarinho!”