Já estava na televisão me dopando para dormir. Nos canais preferidos, comerciais ou desimportâncias. Caio no filminho romântico já visto e revisto, prático para não ter muito o que pensar. E comecei a pensar, em como ele parecia com você, os cabelos dourados cacheados, o olhar desconcertante, o sorriso convidativo, as palavras incisivas. E em como eu me parecia, tão racional, tão toda cheia de medidas, fazendo mentalmente uma lista do que facilitaria a vida. E me sentindo tão só, com uma dorzinha latejante que não há lógica que solucione. Imaginei teu beijo e pude senti a dor parar, como o alívio que sente o sono ao se pensar em deitar. Para não me assumir impulsiva e já desmedida, racionalizei que qualquer coisa valia em nome do meu bem-estar. De um pulo levantei e já quis ir me vestindo, mas me controlei e me convenci que um banho seria bem-vindo. E fui me arrumando, me produzindo, em um ritmo frenético de desalinho, mas sempre pensando que não seria vergonhoso desistir e simplesmente ir dormir. Já quase pronta, me passou um pensamento, tão rápido que nem me lembro, mas que foi forte e me fez sentar na cama. Já não sabia que rastro de comportamento seguir, o que eu acharia loucura logo após decidir. Rápido como o primeiro, outro algo me pôs de pé. Saí às pressas, já nas escadas lembrei do celular carregando, era mesmo preciso?, rápido, volta, pega. Descendo me rindo as escadas, me senti uma princesa, com a longa saia levantada. Mas eu corria em direção ao príncipe, antes que desse meia-noite e fosse ele quem sumisse. Se eu pudesse, aquele carro teria ganho asas, lá iria eu a princesa alada, pois na hora da muita vontade tudo acontece em nossa estrada. Era caminhão gigante manobrando, sinal devagar sempre parando, e eu só pensava em chegar. Estava eu dentro do meu filme, com trilha sonora do Bee Gees (o senhor se incomoda de aumentar?) me traduzindo em uma única frase: “It's just emotion that's taken me over...” (é apenas emoção que se apossou de mim), e eu me ria, me ria. Mas de repente, lá estava eu, procurando, segundo eterno. E de repente lá estava ele, me encontrando, segundo eterno. Lindo, de azul, desde sempre minha cor favorita, naquela pele era magia. A recepção foi fria, e chegamos ao meio do filme. Havia algo errado, não era assim que tinha começado, não era assim que eu tinha imaginado. Vou ser paciente, vamos aguardar, vamos sorrir, vamos conversar, pode ser o contexto. Mas eu não me convencia. Parecia tudo travado, o fluxo estagnado, então já havia se estragado. E tinha outro tão mais atento, tão mais sorridente, tão mais falante, me beijando a mão, me tocando por nada, provavelmente por não perceber, diante de tamanha frieza na mesa, que havia ali uma tensão inacabada, um desejo domado, uma tristeza contida. E esse outro apenas me distraía, enquanto eu esperava, sem nenhuma convicção, algo surpreendente fazer tudo mudar. Cansei de esperar, cansei de só querer. Vou agir. Chegamos ao fim do filme. Havia algo errado, não era assim que tinha começado, não era assim que eu tinha imaginado. Por decisão dele, eu não podia dizer nada, isso eu aceito, posso agir por sentimento. Mas ele, não. Dependente de palavras, eu transmitia e ele não escutava. Implorei, não faça isso. Me conheço, seria o fim. Toda a minha lógica implodida, toda a entrega oferecida, para ele eram nada, se não houvessem, antes, as palavras. As mesmas proibidas, adiadas palavras. Trinquei por dentro. Tanto esforço merecia algum reconhecimento. O que eu sentia era muito maior do que qualquer coisa que eu diria. Nada disso combina com amores cartesianos, tudo muito preto ou muito branco. Tanta intensidade condenada a ter uma outra hora marcada. Então não havia mais nenhuma força em mim. Nem vontade de mais nada, chega de amenidades. É hora de ir. As roupas viraram andrajos, na meia-noite que caiu em mim inteira. Meia volta. E eu só pensava em chegar. Estava eu dentro do meu filme, e lembrei da trilha sonora do Bee Gees, que bestamente eu antes só cantava uma única frase. Agora, já calma, com tempo para pensar, percebi a ironia. Uma frase antes, e mais a frase em seguida, a música virava uma profecia: “In the words of a broken heart, It's just emotion that's taken me over. Caught up in sorrow, lost in my soul...” (nas palavras de um coração partido, é só emoção que se apossou de mim. Apanhado na tristeza, perdido em minha alma). E me sentindo tão só, com uma dorzinha latejante que não há lógica que solucione.
16/12/2011
Friday, December 16, 2011
Abram os portões!
Abram os portões!
Vamos rasgar as cortinas.
Derrubar os quadros retangulares. As janelas, televisões, folhas de papel, portas armários, caixas, revistas, livros, fotos.
Olha o CD, o DVD, o Yin-Yang, o olho, a roda, a bola, o prato.
Rasga isso também!
Rasgar as formas, as bordas, as fronteiras, os limites.
Se me permite,
serei fluido, gasoso, líquido, incorpóreo, éter.
Extravasar, extrair, exibir, exceder.
Eu agüento ser o ex.
Minha loucura é o que me sustenta.
08/12/2011
Vamos rasgar as cortinas.
Derrubar os quadros retangulares. As janelas, televisões, folhas de papel, portas armários, caixas, revistas, livros, fotos.
Olha o CD, o DVD, o Yin-Yang, o olho, a roda, a bola, o prato.
Rasga isso também!
Rasgar as formas, as bordas, as fronteiras, os limites.
Se me permite,
serei fluido, gasoso, líquido, incorpóreo, éter.
Extravasar, extrair, exibir, exceder.
Eu agüento ser o ex.
Minha loucura é o que me sustenta.
08/12/2011
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