Abram alas para a Garota Net. Quando ainda estava doente, assisti, de novo, “Náufrago”, com o carismático Tom Hanks, de novo, que eu acabara de ver em “Mensagem Para Você” (detalhe nos dois filmes: ele ser um velejador). Ter um blog apelidado de “Diário de Bordo”, estar doente, de cama, sem sair nem na esquina e ver um filme com esse título é, no mínimo, irônico. Meu guarda - mancebo parece não ter sido suficiente e lá se fui eu, direto pro mar.
Com certa dose de imaginação, foi possível ver em mim condições semelhantes às da personagem: privada de maiores contatos com o restante da humanidade, passando por terríveis dificuldades físicas e falando com seres inanimados (meus bichinhos de pelúcia, que gracinha pra alguém da minha idade...).
Não bastasse isso, participei da Maratona “Lost”, quando pude ver os episódios que eu tinha perdido desse estranho e envolvente seriado. Mais náufragos. Assim como no filme do Tom Hanks, também por acidente de avião (me lembrem de nunca mais entrar num avião), ambos fora da rota, procurados no lugar errado. Será que estou fora da rota também? Distanciando-me do meu destino? Longe do lugar onde todos imaginam que eu deveria estar? Onde o resgate será pouco provável? Não sei. Todo dia me pergunto isso, todo dia tento corrigir a rota e não me perder. Mas é complicado manter um curso quando não se sabe exatamente para onde se quer ir.
Mas voltando aos náufragos, não é curioso como as pessoas se comportam nesse tipo de situação? Mesmo que tivessem todo o conforto, somente o fato de estarem privadas de contato com o restante da humanidade já é algo desesperador. Longe das construções simbólicas, dos laços afetivos. Que quebra de paradigmas deve ser. Isso me faz pensar que não é a vida em si que importa ou que preocupa num momento desses, mas as construções que fazemos. Sem elas, quase não suportamos nossa própria existência. E homens como Amyr Klink fazem isso deliberadamente. Vêem no isolamento um objetivo a ser alcançado. Por quê? Como ele reagiria como náufrago? Talvez com o mesmo desespero. Diz ele que pior que não concluir a viagem, é nunca partir. Mas, pior ainda que nunca partir, deve ser nunca voltar.
Às vezes, e vai parecer psicologia de beira de calçada, precisamos quebrar alguns paradigmas, e como náufragos, acharmos no novo habitat formas de sobreviver. Não é agradável, e mesmo que façamos parte de um grupo, ainda assim nos sentimos sozinhos. Citando a contribuição do Danilo no post anterior, música do The Police:
“Caminhando essa manha, não acreditei no que vi
Centenas de bilhões de garrafas trazidas até a praia
Parece que eu não estou só em ser solitário
Centenas de bilhões de náufragos, procurando um lar”.
Mas, assim como o personagem de Tom Hanks diz, temos que seguir respirando.
Canta Janis: “ Freedom is just another word for ´nothing left to loose´ ”. Será? Náufragos seriam livres, então. Parece-me que não. Parece-me que, na verdade, tendo ou não algo a perder, nunca nos sentimos livres. Não ter nada também se transforma em algum tipo de aprisionamento. Ou: não, acho que freedom é na verdade não se importar com o fato de ter ou não something left to loose. Ou talvez freedom is just another word.
Náufrago, turista ou viajante? Segundo Lawrence Durrell, viajante é aquele que traz cicatrizes em vez de compras.
Não sei. Quero me crer como viajante. “Eu marquei com cicatrizes cada pedaço do meu olhar”. Mas ser um náufrago um dia é um risco que todos corremos: turistas, viajantes, turismólogos.
O que a maré me trará amanhã?
("Se a escrita serve de remédio para os nervos, conforme palavra dos entendidos, se é expelida pelos nossos gemidos interiores, e salva a gente dos naufrágios, decerto a minha página de ontem deve ter se nutrido da frustração que me acompanha (...)" - Francisco J. C. Dantas)
1 comment:
oie! sou eu, a Ju amiga do pedro :) (de guaramiranga hehhehe)
que legal seu blog!
adorei!
o meu eh : www.blogogrifo.blogspot.com
e o photob: www.photoblog.be/julianacampelo
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