Sunday, August 21, 2005

Tópicos Semi Óticos Aleatórios

A primeira afirmação que me interessou foi relativa ao que diferencia os tipos de Arte, que são seus respectivos códigos e linguagens. Imediatamente comecei a lembrar do que eu já havia estudado sobre os respectivos códigos da linguagem cinematográfica, da linguagem fotográfica e da linguagem visual como um todo. Por exemplo, o elemento visual predominante no cinema é o movimento, enquanto que na fotografia o movimento pode ser apenas sugerido. Por outro lado, também foi dito em sala que o que une todas as artes é seu caráter de representação. A palavra “todas” me faz ter dúvidas. Seria a música uma representação? E perguntando de outra forma, existe um referente em uma música instrumental, por exemplo? Ou na arte abstrata?

Achei interessante a colocação de que o deslocamento do signo pode lhe dar outro sentido (significado) ou o transformar em outro signo, da qual a poesia é um exemplo. Li recentemente em um livro de Martha Medeiros:

“silêncio, estou escrevendo
e não sei se destas palavras
sairá como mágica uma poema
uma reportagem ou um recado
não sei em que se transformará
este grupo de sujeitos e advérbios
que buscam aqui reunidos
decifrar todos os meus medos
silêncio, estou me escutando
e quem fala são meus dedos”

Curioso também o fato de que todas as coisas podem vir a ser signos, quando elas passam a dizer algo mais. Talvez isso seja uma das características da arte contemporânea, ao se utilizar das coisas mais estranhas para compor uma determinada obra. Recentemente vi uma exposição onde o autor se utilizava de tufos de cabelo em todas as peças (evitarei dar minha opinião a respeito).

Realidade x Verdade. Qual a diferença? Cada realidade implica na sua respectiva verdade. Achei interessante o que li na apostila, citação de Marilena Chauí: “Assim para o Grego a verdade depende de que a realidade se manifeste, enquanto a falsidade depende de que ela se esconda ou se dissimule em aparências”. Mais interessante ainda: “O verdadeiro confere às coisas, aos seres humanos, ao mundo, um sentido que não teriam se fossem considerados indiferentes à verdade e à falsidade”. A noção de verdadeiro talvez seja então uma necessidade humana para melhor agirmos em nossa esfera de percepção. Diz João-Francisco Duarte Júnior, em “O que é Realidade?”, que “talvez não devêssemos falar de realidade, e sim de realidades, no plural. O mundo se apresenta com uma nova face cada vez que mudamos a nossa perspectiva sobre ele. Conforme nossa intenção ele se revela de um jeito”. E conforme nosso jeito (sóbrio, embriagado, com raiva, com depressão etc) ele se revela com uma intenção, para resumir o que discutimos em sala. Ou seja, estados alterados de consciência, assim como o sonho, são realidades também – realidades internas.

As discussões sobre “Matrix” e “1984” me fizeram lembrar da música de “Para Nóia”, de Raul Seixas, da qual retirei o seguinte trecho:

“Tinha tanto medo de sair da cama à noite pro banheiro
Medo de saber que não estava ali sozinho porque sempre...
Eu estava com Deus!
Eu tava sempre com Deus!

Minha mãe me disse há tempo atrás
´Onde você for Deus vai atrás
Deus vê sempre tudo que cê faz´
Mas eu não via Deus
Achava assombração, mas...
Mas eu tinha medo!

Vacilava sempre a ficar nu lá no chuveiro, com vergonha
Com vergonha de saber que tinha alguém ali comigo
Vendo fazer tudo que se faz dentro dum banheiro”

Matrix, Big Brother e Deus estariam na mesma categoria: elementos oniscientes controladores da pseudo-realidade.

Quando falamos da estrutura do signo, Significante, Referente e Significado, achei interessante a colocação de que a significação ultrapassa a evidência. Ou ainda, que é possível alterar o significante, o que muda o significado, sem necessariamente mudar a referência. Por exemplo, uma mulher retratada na pintura naturalista ou na pintura fauve (sem preocupação com a fidelidade das cores) é ainda uma mulher. O que nos leva a falar das formas de apresentação dos signos, ou seja, ícone, índice e símbolo: a pintura naturalista era tanto melhor quanto mais icônica fosse, por exemplo. A arte está quase sempre se utilizando dessas diferentes formas de signo, em maior ou menor grau de intenção, para a partir deles construir o quebra-cabeça da obra. Digo “quase” porque tivemos movimentos como o Dadaísmo ou a Arte Abstrata que não tinham a pretensão de gerar nenhum tipo de identificação por parte do observador. Talvez nesses tipos de arte seja possível reconhecer somente o significante, não se constituindo então como signo.

A linguagem se divide em língua e em fala.

A língua possui os seguintes elementos: gramática – vocabulário (o conjunto de signos) – morfologia – sintaxe (a organização estrutural para formar um sentido) – semântica (o sentido que a organização estrutural pode dar). Para identificar esses elementos em uma determinada linguagem artística, é necessário conhecer seu código. Pode haver sublinguagens que serão definidas de acordo com alterações e adequações em um ou mais desses elementos, sendo eles, na minha opinião, os responsáveis pelas definições de estilos, e não somente a mera repetição de signos. A língua é, portanto, o código. Já a fala é a expressão do código. No caso da arte, a fala é a obra.

Eu acrescentaria ainda, como elemento da linguagem, o discurso, que é o conteúdo manifesto na fala.

A discussão sobre a imagem não poder se utilizar da própria imagem para se analisar me fez pensar como somos totalmente subordinados à linguagem verbal, dependendo dela toda a nossa visão de mundo. Senti muito isso quando eu era professora de inglês e estudava e comparava as estruturas de diversas das línguas e precisava esclarecer certos conceitos para os alunos. Essa estrutura influencia a nossa maneira de construir a realidade, assim como a realidade influencia na construção da estrutura.

Discutimos também sobre o conceito de cultura: uma possível definição, cultura erudita e cultura popular (cuja idéia de limite parece estar cada vez mais tênue, apesar do “popular” ainda ser apreciado pela elite através da ótica do exótico e da noção de “nós” x “eles”), a idéia de interiorização da cultura etc.

Em “Janela da Alma”, o escritor Saramago compara o (pre)domínio da imagem que temos hoje em dia com a “Alegoria da Caverna” de Platão. De fato, grande parte do nosso conceito de realidade é construído a partir das imagens que nos chegam.

O conceito mais interessante pra mim, no entanto, é o da cineasta que diz que não é a diferença física que dá a diferença do olhar, e sim a subjetividade. Semioticamente supondo, eu diria que para ela não importa o significante, e sim o significado.

4 comments:

Anonymous said...

Alguns devaneios semióticos,e muito, muito relativismo... cuidado com esse teu curso sobre arte, cuidado extremo com o relativismo, é uma faca de dois gumes, que muitas vezes leva a nada... (olha, que não disse ao nada)
Primeira pergunta, crucial e fundamental: é possível uma teoria sobre a arte, quando a própria definição do objeto de estudo é uma incógnita?
(só sendo chato, pra não perder o costume... heheheheheh)
Beijo.

Anonymous said...

camile, baby, quede tu? bora tomar uma cerveja pra conversar. precisamos.

Anonymous said...

teu blog surtou, mansh. esse anonymous sou eu.

Anonymous said...

caraca! de novo. jords.